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Boom da IA encarece celulares e faz consumidores adiarem troca

A corrida por chips para inteligência artificial reduz a oferta de memória para celulares, eleva preços na Índia e pode prolongar o ciclo de troca de aparelhos.

R Redação
Equipe editorial
19 de julho de 2026 4 min de leitura 7 visualizações
Boom da IA encarece celulares e faz consumidores adiarem troca

Seu celular ainda funciona bem, mas a troca pode esperar mais um pouco? É exatamente esse movimento que começa a aparecer com força na Índia: os embarques de smartphones caíram 10% no segundo trimestre de 2026, enquanto o custo da memória usada nos aparelhos subiu por causa da demanda da inteligência artificial.

O dado, levantado pela Counterpoint Research, representa a maior queda em um trimestre de junho no mercado indiano em seis anos. O motivo não é uma falta de interesse repentina pelos celulares. A pressão vem da disputa por chips entre os smartphones comuns e os enormes centros de dados que treinam e executam sistemas de IA.

Para o consumidor brasileiro, a notícia ajuda a entender uma possível mudança no jeito de comprar celular: aparelhos mais baratos ficam mais vulneráveis a reajustes, modelos intermediários podem perder espaço e o intervalo entre uma troca e outra tende a aumentar em mercados sensíveis a preço.

Por que a IA mexe no preço do celular?

Os smartphones dependem de componentes de memória como RAM, que mantém aplicativos ativos, e armazenamento, onde ficam fotos, vídeos e arquivos. Esses chips também fazem parte da infraestrutura necessária para operar serviços de IA, embora os centros de dados usem versões especializadas e mais potentes.

Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron estão direcionando capacidade para a chamada memória de alta largura de banda, ou HBM. Em termos simples, trata-se de uma memória capaz de transferir grandes volumes de dados rapidamente para aceleradores de IA. Como esse produto rende mais por wafer — a placa de silício onde os chips são produzidos — sobra menos espaço para a memória tradicional de celulares e notebooks.

O resultado é uma combinação pouco confortável: oferta mais apertada, componentes mais caros e fabricantes tentando proteger suas margens. A queda de 10% registrada pela Counterpoint mostra como essa pressão já chegou ao varejo indiano.

A Índia sentiu mais o impacto do que a China. Enquanto os embarques indianos recuaram 10% no trimestre, os chineses caíram 2%. A diferença tem relação com o perfil de consumo: cerca de 60% do mercado indiano está concentrado em celulares abaixo de ₹20.000 (R$ 1.350), faixa em que qualquer aumento de componente pesa mais no preço final.

Quem sente mais e o que muda na prática

O segmento abaixo de ₹15.000 foi o mais atingido, com queda de 45% nos embarques em relação ao mesmo período do ano anterior. Marcas chinesas, muito expostas aos aparelhos de entrada e intermediários, perderam participação combinada e chegaram ao menor nível para um segundo trimestre desde 2020.

Na outra ponta, as marcas premium parecem mais protegidas. A Samsung foi a única grande fabricante a registrar crescimento de embarques na Índia no trimestre, com alta de 2%. A Apple caiu 3%, mas o recuo foi associado principalmente a limitações de oferta e falta de estoque, não apenas à sensibilidade dos compradores ao preço.

Financiamento também virou uma peça central para tornar aparelhos caros mais acessíveis. Isso não elimina o aumento: apenas espalha o custo em parcelas. Já quem não consegue ou não quer assumir esse compromisso pode adiar a compra, procurar um aparelho usado ou escolher um modelo mais simples.

A estimativa é que o ciclo médio de substituição passe de aproximadamente três anos e meio para quatro anos. Para quem usa o celular para trabalhar, estudar ou administrar a vida financeira, isso torna mais importante observar bateria, armazenamento e suporte de software antes de comprar — não só a câmera ou o processador.

As empresas também estão revendo seus planos. A OnePlus informou que deixará de lançar novos produtos na Europa e na América do Norte, mantendo a operação indiana. Os dados citados na reportagem mostram que a China passou a responder por 74% dos embarques globais da marca no primeiro trimestre, enquanto a participação da Índia caiu para 19%. Com margens menores, manter várias submarcas e operações espalhadas fica mais difícil.

O ponto ainda em aberto é quanto tempo essa pressão vai durar e como ela chegará a outros países. A IDC estima que a falta de memória e os preços elevados podem persistir até pelo menos o fim de 2027, embora a velocidade dos reajustes possa diminuir à medida que o mercado se adapte. A própria previsão para a Índia ainda não estava finalizada.

Não há, nos dados disponíveis, uma projeção específica para preços ou vendas no Brasil. Por isso, não dá para afirmar que os celulares daqui subirão na mesma proporção. O sinal concreto é outro: enquanto a indústria priorizar a memória usada em sistemas de IA, o aparelho de entrada continuará sendo o elo mais exposto da cadeia — e esperar alguns meses para trocar de celular pode se tornar uma decisão cada vez mais comum.

Fonte: TechCrunch

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